volta e meia

na volta e meia da estória
uma metade da vida
revê sua passagem,

uma confessa o que sabe,
outra sem lugar na paisagem.

na segunda volta da estória
uma metade da mentira
acha sua cara verdade,

uma vai de graça
outra no beco se abre.

no vai e volta da estória
uma metade da vida
em si não mais cabe,

uma toma sol
outra o tanto que a arde

RIOSDEDOIS

hk

detalhemo-nos de areia
para   soprar  coqueiros

hk

vou-te-arei

hk

perdisse-te

hk

receber nos íamos

hk

a palavra   como

hk

do céu
a água vai
o barco fica

bobice


chegou maria:
com graça,
boa farsa,
tudo traça,
moça massa!

assim,
anas e outras
fulanas,
sumidas,
sem famas,
esquecidas.

porém...
um detalhe,
um vento
um talhe,
e maria
é ex festa,
menos orna,
mais resta.

agora ana:
com dança,
gira
e lança,
inflama,
nova trança.

mas ops!
sem convite, mariana.
nada entrega
nada clama,
errou de rua,
atrasada,
vai na sua,

não sabe ana
nem maria,
nem que agora leva 
o que às duas

se daria.

transcencídio

era pequena
geniosa e rebelada,
exigia-se o corpo de uma fada,
para com ele vestir
o último sentido,
e fazer parar o logos,
- por ela, ungido.
depois, gozar o amor alado,
ela e o céu,
um só lado.
dedicou calma a esse fardo,
torceu a noite das palavras,
cicatrizes  amarras  travas,
até  obter  o que queria:
depois dela nem o nada.
e morreu entediada,
fada e fria.

dias por nós



a coisa toda cabe
em três dias
e um pouco mais.

um no ermo da casca
outro rodando
e um de sentar-se.

dias de mundar,
de aquietos de esquecer,
de nem convém muito mais.

três dias e alguns outros,
os que se apresentam logo de manhã,
os de café morno em copinho de plástico,

os dias ricos de desviamentos
e voltas  às matérias dúbias,
os dias iguais de presenças iguais.

dias recolhendo o bom de haver,
de recomendas,
de estava aqui até ontem mesmo,

de palavras chamativas
de achar dinheiro no bolso da calça,
de não houvesse a máquina stalinista de carros,
de te dizer o garçom que a cozinha vai fechar,

dias de pisar em poça
de comer pastel
de comer só
de comer a gula demais,

dias na sequencia
de outra e outra mais
e quebras,

dias de bandeio
dias de caiçara de silencio,
de meneios e musica dos costumes,

dias de chuva de dias no sul de minas,
de tietê como uma cobra
gorda e resignada,
dias de azul que prensa
no amplo de goiás.

dias percorrendo em nós,
sem licença
sem amabilidades,
um deus entre mortais.




sem imagem
sem pulo
sem trago,
sem defasagem,

e tudo que vem
não soa
não paira,
cai de fasto antes do lábio,

e fica muito,
fica enfarto
fica amorfo
de tanta face,

de tanto que passa
de coisa não essa:
não insólito
não belo
não flor lua e amor
não tédio,
não dói
não ido
não chuva

nem sacanagem.

esselado

o poeta é um exilado do poema
só       tem um lado dele,
aquele que crepita
sem a queima lida.

o poeta vive do transferido
pra morrer de escrito.
assassinado quando a cria avoa,
a cria ingrata, que nunca lhe povoa.

degredado a bom recanto,
mas mudo de dizer,

redizer no entanto.

um sumiço

no lapso desse antes
interstício,
riso laço
fogo, artificio.
no pouso do corpo,
o oco do sopro,
sem indício
riso tela
nela à toa,
um sumiço.

pouso poente

um pouso da nuca
que lhe atrase o poente,
pouso em diante,
que não lhe anteceda a pista
a não ser no próprio pouso, incidente.
pouso flagrante,
de esgueio,
pouso de hiato,  
pouso flerte do pouso do gato.

ao vazio




escrevemos ao vazio
manchas brancas,
deus nos ecos das fachadas.

acordamos ao vazio,
rachos muros,
deus nos fios opostos das navalhas.

trepamos ao vazio
línguas moles,
deus nos sensos retirantes.

esquecemos ao vazio
ferros ares,
deus nas redes amantes.

voltamos ao vazio,
deus nos ajude a esburaca-lo.



arquejo som

arquejo
espasmo
sarraceno traço,
a atritos cedes,
do som 
o caço.
a gota
a queda
deslize março,
arquejo som,
na poça
o fio,
furto faço.

palavra não nascida

do limo do aluvião
que o verbo sul americano
o tempo não colheu,
como pedra qualquer
entre milhares,
resta uma palavra tupi
num corpo áfono, proteu.

palavra caída da beira do lábio
que beijou a boca do novo deus,
imiscuída na fazenda dos nomes,
no sêmen indo europeu.

palavra que não aguarda
nenhum tecer da história,
não consta, não há,
nem falta à memória.

envoltório a todo dizer,
antecipa-se ao quisto,
no acaso de cada dado,
o sismo, na boca materna,
ancestre não nascido,
do corte voraz, o vivo.



ponto final

se a nó amou à toa
e açu tola a perda tua
leva a faca à dor
e verte em corte a injuria
e se desinfla a boa luxuria
por micha orgulha loucura
desenha-te a unha
apruma tua espúria.

  

corpo dois

o corpo dois
busca encosta,
esgarça lhe a meta,

a margem dobra, 
em tudo que nela aporta,
nada aquieta,

urgem sem nome
roceios, o corpo dois,
duas praias vagas,
fagos do amor os veios.


só os persas

só os persas podem ser sábios,
milhares de anos no mercado.

só os persas podem ser calmos, serenos
e de tão alegóricos do empíreo atávicos.

os persas leem o pássaro
e dispensam a mensagem.

e podem ser lentos,
o lento que encontra sem procura
o lento da ciência que caminha
ao lado da insistência obscura.

há outros povos, mas só os persas
podem amar por uma vida toda,
o amor mortal do chá pela agua quente,
o amor sóbrio da colina por haver colina,
o amor incerto da nuvem pela chuva,
o amor preciso do vestido pela menina.

os persas sabem o nada
o transbordo da fagulha
o riso de um grão,
o entroso da água.

milhares de anos no mercado.


diga-se assim

diga-se assim de passagem
diga-se assim de lado
como encontro não dado
como perda de um tento
no curso de um quase evento

  
diga-se entre antes e depois
como se fosse dizer      um    entre     dois,
como se o dito nascesse
o que o não visto impôs.

diga-se assim como descarrilando
como acerto de improbabilidades
como um certo todo errado.



diga-se voltando-se a anos
depois de minutos que nos sabemos sabe-se lá o que.

diga-se assim como se fosse mesmo só dizer
como se isso se desse,
como se isso se subverse.
como se o dito e o silêncio pudessem.




certa sua

uma sua distraída de ti
pela rua da boa farsa ia,
bem diferente
dessa da tua besta
melancolia;

pediu um sorvete
de fim de tarde
e um suco de alegria,
deu-me seu telefone
e um beijo de garantia.

disse que você nunca
saberia, e que seremos
encontros de viabilidades,
por todo esse dia.




do antro

e se nos dá o arrebato
do manto avesso, o fator,
desse antro de seivas
que encerras ao pudor,

tenda-nos ninhos de rasgos
da força agressiva
a ordinária contenda dos atritos
enfim, dispor

do suspenso do teu infame,
o que te abres e supera,
outrora, pavor.



a casa insistente

havia crença de estirpes
e atinos,
havia na casa frios vagos,
ferinos.

havia um pai de sombra
e de um sorriso.
havia aguardos de quintal,
cachorros de vida à toa e viço,

uma escada de onde se via
o morro Sta. Augusta,
o fim de toda tarde
em coisa ocre e vazia.

havia salas incompletas,
havia a casa atrás da casa;
havia irmãos que chegavam
de outras vidas contadas e partiam.

havia o muro do laticínio
da rua Rio Grande do Norte,
o primeiro beijo calculado sem sorte
e que não voltou no outro dia;
doeu de raiva
doeu de corte de folha,
doeu que havia o que não sabia.

havia no quarto murmúrio
de moças faladeiras
descendo a calçada,
havia o riso de Fátima
de um ecoado de pacto
de inconfessa liturgia.

na casa outras havia,
a casa náufraga,
a que seria,
a casa de orgulho e queda
em simetria.

distar III

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